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Como o psicólogo pode atuar no atendimento à mães adolescentes

Instituto MaterOnline

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A maternidade antes dos 18 anos não é um fenômeno atual, mulheres sempre tiveram filhos antes dos 18 anos, isso ocorria com muita frequência até o início do século XX. O que mudou foi que no início do século XX originou-se uma nova categoria no que se refere ao desenvolvimento humano: A chamada Adolescência. 

A adolescência não é universal, o que é universal é a puberdade, essa sim sempre existiu e continua a existir em todas as culturas humanas, mas a adolescência é uma criação cultural do Século XX e, portanto, não está presente em todas as culturas e não pode ser considerado um fenômeno natural. 

Antes do século XX não existia o adolescente, os jovens aos 12, 13 anos ingressavam no mundo do trabalho, muitos deixavam os estudos muito cedo para trabalhar e as mulheres eram educadas para serem boas esposas, donas de casa e mães, não era comum a preocupação feminina com o seu futuro profissional. Portanto, casavam-se muito cedo e tinham filhos também com pouca idade, quando comparado aos dias atuais. E isso não era considerado um fator de risco para aquela sociedade, mas era algo comum e esperado. Quantas de nossas avós não se casaram antes dos 18 anos e tiveram seus filhos? 

Em nossa sociedade existem os adolescentes e sua forma de agir, pensar e sentir, muito característico para sua idade, mas não é correto dizer que todos pensam, sentem e agem da mesma forma, seus comportamentos variam de acordo com sua a classe social, momento histórico, personalidade, identidade entre outros. 

Agora que já sabemos que a adolescência foi uma invenção cultura, vamos falar também um pouco sobre gravidez na adolescência. Hoje há um mito de que gravidez na adolescência é algo totalmente inadequado. Minha pergunta é: Inadequado para quem? O que faz uma pessoa julgar o que é certo ou errado para a outra pessoa? Quem foi que disse que uma adolescente não pode planejar de forma consciente sua gravidez? 

No Brasil, mais de 50% das gestações não foram planejadas e não temos mais de 50% de gestações no Brasil de adolescentes, isso significa que tanto mulheres adultas, quanto adolescentes estão incluídas nessa proporção de não planejamento da gravidez. Cerca de 18% dos partos no Brasil, ocorrem com adolescentes (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018). 

Pensar que ter um filho na adolescência é “estragar a vida” pode ser um pensamento muito preconceituoso. Para várias adolescentes engravidar nessa fase da vida, pode de fato desencadear conflitos psíquicos que podem gerar adoecimento psicológico, entretanto, para as adultas também o mesmo fato ocorre. Uma pesquisa realizada por Freitas e Botega (2002) indicou que 21% das adolescentes grávidas apresentam sintomas de depressão, e outra pesquisa realizada por Pereira et al. (2010) indica que 14% das gravidas adolescentes apresentam depressão na gestação. Entretanto, pesquisas também indicam mesmas prevalências em gestantes adultas. Para Pereira e Lovisi (2008) em revisão de literatura encontraram dados que indicam que cerca de 25% das gestantes no Brasil apresentam sintomas de depressão já na gravidez. 

Portanto, a gravidez não ser um fator de alegria plena nas mulheres não é uma exclusividade para as adolescentes. Por outro lado, assim como nas adultas há um grupo de adolescentes que ao engravidar se sentem alegres, plenas e realizadas. Há até mesmo adolescentes que planejam a gravidez, parece esquisito, mas não são raras. Há também aquelas que já vivem com um parceiro, levando uma vida conjugal e desejam muito uma gravidez. 

Desta forma, planejada ou não, a gravidez na adolescência não é um fenômeno raro e é preciso olhar para esse fenômeno não com um olhar preconceituoso da “classe dominante”, mas, é preciso olhar para essa mulher como alguém que precisa de apoio, como qualquer outra gestante ou mulher que acaba de ter o bebê. 

A sociedade precisa acolher melhor a mãe adolescente, ela é capaz de cuidar de seu bebê tanto quanto uma mãe adulta de primeira viagem, ela precisa de apoio dos familiares, principalmente no que se refere a ser responsável pelo seu filho. Muitas avós acabam impedindo a filha de cuidar de seu próprio filho com o discurso de que é muito nova e não saberá cuidar do bebê, é importante que as avós ajudem nos cuidados com o bebê, mas não auxilia em nada tirar essa responsabilidade da filha que é a mãe do bebê. 

Portanto, nós psicólogos devemos oferecer apoio à mãe adolescente, ajudando na prevenção de conflitos psíquicos, familiares e sociais. Devemos continuar sim, trabalhando na prevenção de gravidez na adolescência, mas tendo um olhar mais amplo, pois não são somente as adolescentes que engravidam sem planejamento, o maior número de mulheres que engravidam em nosso país sem planejamento são as adultas!! Portanto, temos que atuar principalmente no Planejamento Familiar, muito mais do que na prevenção da gravidez adolescente. O Planejamento Familiar deve ser oferecido para TODOS os homens e mulheres em idade reprodutiva. 

Devemos saber que sim a gravidez na adolescência trás riscos sociais, pois, aumentam as chances de evasão escolar e consequentemente, menor escolaridade e menores salários, entretanto, é preciso compreender quem é a adolescente grávida, se aquela gestação foi ou não planejada, quais são os sonhos dessas adolescentes, para aquelas que existem um sonho de cursar uma faculdade e ter um emprego remunerado, talvez essa gravidez dificulte um pouco no tempo para realizar esses sonhos, mas, pode ser também que o sonho dessa pessoa sempre foi o de ser mãe, e não tenha a menor vontade de fazer um curso superior, sim nem todo mundo quer e deseja fazer faculdade!!! 

Portanto, não é papel do psicólogo julgar qual é a melhor idade para se ter um filho, é nosso papel oferecer orientação, reflexão e promover discussão sobre esse assunto em escolas, na comunidade, nos centros de saúde, não impondo o próprio valor, mas entendendo e compreendendo a fala do adolescentes à esse respeito e atuando portanto, de forma ética, responsável e aceitando o outro como outro. 

Referencias 

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE . Ministério da Saúde fará monitoramento online de partos cesáreos no país . 2018. Disponível em: < http://portalms.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/42714-ministerio-da-saude-fara-monitoramento-online-de-partos-cesareos-no-pais.>

FREITAS, G.V.S; BOTEGA, N.J. Gravidez na adolescência: prevalência de depressão, ansiedade e ideação suicida. Rev. Assoc. Med. Bras. v.48, n.3, p.245-249, 2002. 

PEREIRA, P.K et al. Complicações obstétricas, eventos estressantes, violência e depressão durante a gravidez em adolescentes atendidas em Unidades Básicas de Saúde. Revista de Psiquiatria Clínica., v.37, n.5, p.216-222. 

PEREITA, P.K; LOVISI, G.M. Prevalência da depressão gestacional e fatores associados. Revista de Psiquiatria Clínica., v.35, n.4, p.144-153, 2008.