dezembro 4, 2020

Anna Carolina Silva Guedes de Araújo – CRP 15/4579

É perceptível que a maternidade ocasiona múltiplas mudanças na vida da mulher – biológicas, psicológicas e sociais – que ocorrem de formas diferentes durante e após a gestação. A invisibilidade materna é um fenômeno social, que se manifesta com a chegada da maternidade, quando a mulher passa a ser “apagada” em vários aspectos e contextos (identidade, individualidade, mercado de trabalho, relacionamento amoroso, interações sociais e etc…).

A capa de invisibilidade materna começa a ser costurada ainda na gestação, quando a identidade da mulher é suprimida e ela passa a ser tratada apenas como a “mãezinha”, e tudo que as pessoas veem é uma barriga grande que qualquer um pode tocar, sem se importar com o que a gestante acha disso. Tanto na gestação quanto no puerpério, muitas vezes, é negada a mulher a possibilidade de ter sentimentos distintos e expressar suas emoções. Sendo essa mais uma forma de colocá-la sob a capa da maternidade perfeita, retirando sua vivência de contexto e o seu direito de ser humana. 

Por ter a sua identidade de mulher sobreposta totalmente pela identidade de mãe, ela perde o direito a sua individualidade ao ser julgada caso resolva dividir a sobrecarga de cuidar de uma criança e separar um momento para si, seja por delegar responsabilidades ou por continuar saindo eventualmente para curtir a sua vida.

Isso repercute também na vida amorosa, pois, é difícil para essa mulher exercer a sexualidade de forma livre dentro de seu casamento (o machismo/patriarcado muitas vezes interfere em como ela passa a ser vista pelo companheiro após ser mãe). E também, gera preconceitos caso ela busque novos relacionamentos (como se “mãe solteira” fosse um problema a ser evitado).

Apesar da mulher ter o maior peso da responsabilidade por criar os filhos – que é colocado pela estrutura machista e patriarcal da nossa cultura – há uma invisibilidade perante a opinião da mulher-mãe em relação aos seus filhos. Muitas vezes, a interferência é exercida em formas de palpites e até de ações que podem ser prejudiciais as crianças. Isso só ocorre porque a mulher não é enxergada embaixo da capa da maternidade, esquece-se que ela precisará lidar com as consequências físicas e emocionais ao ter suas decisões desrespeitadas. 

Outra forma de invisibilidade materna é o conteúdo monotemático, que ocorre porque a mulher é enclausurada na temática da maternidade, como se ela não fosse mais capaz de conversar ou se interessar por um outro assunto. Isso impacta em como se dá a relação com o mercado de trabalho, pois, muitas vezes a capacidade da mulher passa a ser subjugada, a mudança referente a alteração da rotina com a maternidade não é levada em conta e a produtividade é avaliada erroneamente, gerando dificuldades de acesso/retorno ao mercado de trabalho. Assim, após a maternidade, a mulher é julgada se quiser ter um emprego e também se não quiser.

Também existe a invisibilidade no polo oposto, onde a maternidade da mulher é invalidada, como no caso de adoção em que o preconceito é o que pauta as interações sociais, e, ela é vista como “menos mãe”. E também os casos de “mães de anjo”, que são decorrentes das mortes prematuras dos filhos (seja na gestação, no parto ou após o parto), e apagam, da realidade dessa mulher, a vivência da maternidade.

A ideia disfuncional que existe na nossa sociedade – que esconde as mulheres embaixo da capa de invisibilidade materna (seja por apagar a mulher ou seja por invalidar a maternidade) – causa sofrimentos, adoecimentos psíquicos, sentimento de inadequação, e solidão nas mulheres-mães. Para conseguir desfazer isso e promover a saúde mental materna, nós, enquanto sociedade, precisamos repensar a forma que enxergamos a maternidade para desromantizar e acolher as diversas realidades e possibilidades de ser mãe e mulher.

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  1. Que texto maravilhoso! Eu sinto muito esse distanciamento nas interações sociais, é muito real! A gente passa a não ser convidada a lugares que antes seríamos. Ouvimos também "mas só fala de maternidade" sendo esse o único lugar em que nos colocam, no de mães, muitas vezes não temos outras vivências sem os filhos por conta da falta de uma rede de apoio que apoia de verdade.

    Enfim, necessário! Obrigada Anna!

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