agosto 25, 2020

Por Denise Juliana Veiga de Queiroz Gomes
Psicóloga Perinatal (Instituto MaterOnline) CRP 05/61517

Certa vez, vi o relato de uma grávida que questionava em sua rede social sobre a romantização da maternidade, falando que as mulheres mostram-se plenas e felizes, passando a visão de uma gestação ideal, onde sentem-se lindas, donas de si, gratas por receberem a dádiva de gerar vida.

Essa gestação idealizada e fantasiada cuja a imagem é transmitida, provocou incomodo quando a gestante que realizava o desabafo se deparou com medos, limitações, impedimentos para seguir temporariamente seus projetos, necessidade de reduzir a carga de trabalho, recomendação médica para repouso e se perguntava porque ninguém fala sobre a maternidade real com seus desafios? É sabido que cada mulher se relaciona e vivência de uma forma a gestação, umas amam ficar grávidas, outras não gostam do seu corpo grávido, existe as que se relacionam com o bebê, outras não, a maternidade é envolvida por fantasias e desejos, permeada pela história de vida da gestante e família. A questão aqui, é que independente do que a mulher esteja sentindo e vivendo, nem sempre encontra espaço para compartilhar seus reais sentimentos, desejos, medos, pois não encontra acolhimento na sociedade que não permite e não entende como ela pode não estar feliz nesse momento tão sublime.

Essa forma de relacionamento com a maternidade é uma construção social que a história nos conta. Quando os bebês nasciam eram levados para ama de leite cuidar na fase inicial da vida e longe do convívio familiar, com outros bebês, muitos morriam, então para reduzir a mortalidade, a maternidade foi romanceada, criando uma vinculação da imagem materna a de Maria, mãe de Jesus, proporcionando um laço do bebê com a família, principalmente com a mãe, que passa a cuidar exclusivamente desse bebê, amamentá-lo, e assim reduzindo a mortalidade infantil.

Dessa forma, começa a ser visto como inadmissível não estar feliz, plena, nesse momento tão divino. O fato é que na maternidade real, além da possibilidade de construção de amor, vínculo, existe também a ambivalência, onde a mulher deseja e não deseja o filho, quer e não quer estar grávida, sente alegria, prazer, satisfação, medo, insegurança, tristeza, entre outros, mesmo quando planejou, desejou a gestação, quer ser mãe e ama o bebê.

A gravidez é um dos momentos potenciais de crise vividos pela mulher durante sua existência, nessa fase, acontece uma desadaptação, desconstrução e necessidade de readaptação a novos papéis, novas responsabilidades, nova organização da casa e das rotinas, crescimento da família, amadurecimento das relações, planejamento financeiro e isso tudo causa ansiedade, temores frente ao novo e desconhecido momento que está vivendo.

Mesmo na gravidez planejada, pode ocorrer coisas que fogem ao controle e conhecimento prévio, como complicação de um quadro clínico, enjoo, aumento de peso, cansaço, sonolência, isso angustia frente a imagem de gestante perfeita e ideal vendida pela mídia, onde a mulher sente-se linda, bem-disposta, pratica yôga, pilates, hidroginástica ou outra atividade indicada para gestante e é nesse cenário que a mulher é confrontada e acredita que tem alguma coisa errada com ela, pois diferente das demais, não sente essa felicidade ou não se vê linda e plena o todo tempo, mesmo amando e desejando seu bebê.

,Diante desse cenário, pode-se contar com o profissional da psicologia para auxiliar nessa fase da vida, por meio de sua escuta em diversos tipos de atuação, poderá acolher propiciando intervenções importantes para a saúde mental da gestante, vinculação e desenvolvimento do bebê.

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