abril 20, 2022

Por Bárbara Góes CRP03/15900

Aquela relação entre duas pessoas, na qual uma se dedicava exclusivamente à outra, agora recebe um “intruso”.

De um lado uma mulher, que passou em média 40 semanas esperando o novo membro da família, com altas e baixas de hormônio, mudanças biopsicossociais, privação de sono, enfrentando o puerpério e adaptando-se ao seu mais novo papel: Mãe. Do outro lado o parceiro(a), que precisa dar apoio a toda essa mudança na vida da parceira e ainda aprender mais uma função: Pai.

De acordo com Béjin (1987), com a chegada do bebê, em muitos casos o cônjuge recebe a sobrecarga de funções de amante, confidente, amigo(a), pai/mãe, administrador do lar, entre outros e isso sobrecarrega o casamento e/ou mesmo o parceiro conjugal de expectativas e responsabilidades além do que se pode arcar ou cumprir.

As mudanças ocorridas na sociedade ocidental têm modificado o modelo de família centrado na figura masculina, ampliando a participação e o envolvimento da mulher no mundo social e do trabalho. Porém, as mulheres ainda são as principais responsáveis pelos cuidados com os filhos e pelo trabalho doméstico. Isso, por vezes, acarreta a sobrecarga feminina e maior insatisfação com o relacionamento conjugal após o nascimento dos filhos.

O exercício da paternidade e o modo como ele é desempenhado mostram-se como aspectos relevantes que contribuem para que o casal disponha de recursos socioemocionais para juntos encontrarem alternativas de adaptação às demandas advindas do novo momento de vida da família.

Costa e Katz (1992) observaram que em casamentos satisfatórios é característica comum a capacidade dos seus membros de exporem verbalmente suas queixas e expectativas. Portanto, a comunicação pode ajudar na solução de problemas cotidianos, os quais, se não resolvidos, podem gerar diminuição da intimidade do casal, aumento de sentimentos negativos e, consequentemente, insatisfação conjugal.

O casamento não é o mesmo ao longo da vida do casal, ele se transforma segundo as mudanças pessoais e familiares que vão ocorrendo (NOEGREN, 2002).

Então, se não acontecerem transformações na relação conjugal com o propósito de adaptação a mudanças oriundas do seu próprio desenvolvimento, o casamento torna-se inviável.

Alves e Boccato (2010) apresentaram dados de uma pesquisa realizada por Rollins e Cannon em 1974 com casais norte-americanos e concluíram que a transição de fases do casal conjugal para o casal parental é responsável pela queda no nível de satisfação conjugal, tanto dos maridos quanto das esposas.

Nessa transição os investimentos afetivos direcionados na relação homem-mulher são deslocados para a relação pais-filho. Assim, a chegada de um filho atribui aos cônjuges novos papéis, que se agregam à representação que cada um tem de si mesmo e do outro, gerando modificações significativas na autoimagem e na imagem que têm do parceiro. Além disso, a projeção de figuras maternas ou paternas no cônjuge ou mesmo a fantasia de abandono por parte de um deles na ocasião do nascimento de um filho pode prejudicar a satisfação conjugal.

Toda essa mudança na vida do casal pode trazer muitos conflitos. Quando o casal consegue se adaptar às mudanças oriundas da chegada dos filhos na vida familiar e busca negociar soluções eficazes para os problemas cotidianos, há um aumento tanto na satisfação conjugal quanto na qualidade da realização das tarefas parentais. Isso é o que se espera do casal, pois, segundo apresentado por Mello (2002), os divórcios ocorridos logo após a chegada do primeiro filho ainda são os mais frequentemente observados na prática clínica.

Carter e Mcgoldrick (1995) afirmam ainda em seus estudos que a transição da conjugalidade para a parentalidade pode ser considerada um fenômeno complexo por envolver transformações significativas no funcionamento de todo o sistema familiar. Transformações essas que impactam os indivíduos e influenciam as interações estabelecidas entre os membros da família, que passam a construir uma nova dinâmica em suas relações. E uma grande parte dos casais enfrentam uma severa crise após o nascimento do primeiro filho, podendo ser considerada a primeira grande crise enfrentada no contexto familiar.

O casal, ao se tornar pais, precisa adaptar-se ao novo estágio de vida, aceitando um novo membro no sistema e ajustando-se como casal para lidar com as demandas de educação, tarefas domésticas e realinhamento da família para inclusão de novos papéis (CARTER; MCGOLDRICK, 1995). As mesmas autoras referem que a transição entre o estágio anterior e o posterior do ciclo de vida da família promove maior carga de estresse na organização familiar, gerando crises da família. Essas crises correspondem a um acúmulo de estresse oriundo da necessidade de adaptação ao novo estágio de desenvolvimento da família.

Os casais, quando bem organizados, evoluem nessa transição, tanto na condição de família, quanto na de cônjuges, tendo como resultado maior satisfação em sua relação. Contudo, o ajustamento dessa etapa também pode influenciar negativamente a intimidade do casal, quando gerada desigualdade na relação devido à dificuldade por parte de um dos cônjuges em adaptar-se quer como cônjuge quer como progenitor (SOARES; COLOSSI, 2016).

Portanto, entende-se que a transição para a parentalidade pode promover a relação do casal, como também apresentar declínio no exercício da conjugalidade, sendo a qualidade da relação afetiva, anterior ao nascimento do bebê, um importante preditor para a manutenção de todo o sistema neste momento de crise.

Referências

ALVES R.L.; BOCCATO I.C.A. As particularidades da (in)satisfação conjugal antes e depois da chegada dos filhos. Boletim Academia Paulista de Psicologia, v. 30, n. 79, 2010, pp. 424-439. Disponível em <https://www.redalyc.org/pdf/946/94615412014.pdf>. Acesso em 19 de janeiro de 2022.

BÉJIN, A. (1987). O casamento extraconjugal. In: P. Aires, Sexualidades ocidentais: contribuições para a história e para a sociologia da sexualidade. São Paulo: Brasiliense, p. 183-193

CARTER, B.; MCGOLDRICK, M. As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 1995, p. 7- 29.

Costa, G. P. & Katz, G. (1992). Dinâmica das relações conjugais. Porto Alegre: Artes Médicas.

Mello, M. I. V. (2002). Família e transições no ciclo de vida. Site Instituto H. Ellis. Recuperado em 05 de outubro, 2009, de www.instituto-h-ellis.com.br/ unidade_freicaneca/textosDet.asp?=31.

Norgren, M. B. P. (2002). Para o que der e vier: estudo sobre casamentos de longa duração. Dissertação de Mestrado, PUC/SP, São Paulo.

SOARES, B.; COLOSSI, P. M. Transições no ciclo de vida familiar: a perspectiva paterna frente ao processo de transição para a parentalidade. Barbarói, n. 48, p. 253 – 276, 4 jul. 2016.

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