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abril 11, 2022

Por Renata Braga Pasini CRP 05/39471

De onde veio a famigerada “culpa materna”?

Atualmente já se criou até um dito popular sobre isso: 

– “nasce uma mãe, nasce uma culpa.”

É culturalmente naturalizada a responsabilidade da mãe nos cuidados com o bebê e com as crianças. Mas sabemos que nem sempre foi assim. 

Badinter, em seu livro “O MITO DO AMOR MATERNO”, nos mostra que antigamente os cuidados com os filhos não eram atribuição da mulher. Ela nos diz que depois do nascimento, os bebês eram entregues as “amas de leite”, e só retornavam a família depois de um tempo, se sobrevivessem. Era alto o índice de mortalidade infantil, e a medicina higienista da época, passou a atribuir à mulher os cuidados com a casa e com os filhos. O que para a mulher da época, não foi ruim. Precisamos lembrar que as mulheres não tinham muito lugar na sociedade e poucos direitos naqueles tempos. Assim elas passaram a ter um lugar e uma função importante, atribuídas pelo saber respeitado da época: o saber científico. As mulheres passaram a se orgulhar de sua função e do título de “rainha do lar”.  Ganharam uma valorização, e uma importância social, que ainda deixam resquícios em muitos modos de subjetivação da mulher. O discurso religioso também se apropriou dessa normatização enaltecendo amor materno como atributo do feminino, uma vocação natural de toda mulher, a exemplo da Santa Maria, um modelo de abnegação a ser seguido.

Essa função de cuidar foi sendo incorporada como algo inerente a mulher, por conta da gestação, do parto e da amamentação, acontecimentos biológicos e que ocorrem no corpo da mulher. 

Perceber essa forma de subjetivação histórica, e como o gênero feminino se constituiu e se estruturou, nos dá uma ideia sobre a origem da responsabilização da mulher nos cuidados com os filhos com o qual nos engendramos sem o menor estranhamento. 

Recebemos o pequeno bebê como um objeto nosso, como se fosse parte do nosso corpo, e tomamos junto com ele todas as responsabilidades sobre aquele pequeno sujeito. E caímos, sem perceber, na armadilha da culpa materna, como uma responsabilidade absoluta e exclusiva da mãe, sem perceber os resquícios do “empoderamento” perverso contido na antiga rainha do lar. E assim, nós mães, nos alienamos no aprisionamento invisível da culpa materna.

As mães querem ser tudo para o pequeno bebê, pretendendo dar conta de tudo como senhoras da situação. Acreditam que são feitas para maternidade, que quando gestam, ou ganham um bebê, um instinto virá em seu socorro, brotando junto com o amor materno santificado.

Não é a toa que muitas se ressentem com a chegada do bebê. Há um estranhamento com relação a ele, e expectativas com um instinto que não surgiu de seu corpo jorrando como o leite. Se sentem em desamparo junto com o pequeno desconhecido, e acham que é algo que só acontece com ela, pois a ideia universalmente divulgada é do amor incondicional e do instinto que chegará em seu socorro. E é natural que o pensamento que lhes chegue seja: o que eu fiz que não fui contemplada com esses atributos como todas as mães? Logo já se responsabilizam por não receber algo que na verdade não existe, mas que é socialmente reforçado como um acontecimento natural. Junto com essa culpa, por não amar de pronto, e nem saber instantaneamente o que fazer com o bebê, vem a vergonha e o constrangimento, que as faz negar para si mesmas a ambivalência e tristeza em que se encontram.

Se ao invés de romantizar  a maternidade, ela fosse colocada, desde o início, com suas duras realidades, as coisas poderiam ser diferentes. Se fosse tão fortemente divulgado que o instinto materno não existe, que o instinto cabe aos animais, e o aprendizado aos humanos; que o amor, é sempre algo constituído ao longo de uma relação, muito sofrimento seria evitado.

Evitar a romantização da maternidade, acabar com o mito do amor materno, e descortinar a inexistência de um instinto materno, são movimentos importantes, para afrouxar os grilhões da culpa materna, e evitar sofrimento e adoecimento para as famílias. Mas para isso, também é importante a naturalização da divisão de responsabilidades com os pais e com quem mais puderem recorrer nessa nobre função do cuidar.

Referências:

Ariès, Philippe. História social da criança e da família; tradução Droa Flaksman. Rio de Janeiro, 1986.

Badinter, Elisabeth. B126a Um Amor conquistado: o mito do amor materno; tradução de Waltensir Dutra. — Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

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