setembro 4, 2020

Por Fabiane Espindola De Assis
Psicóloga Perinatal (Instituto MaterOnline) CRP 18/03893

A experiência da maternidade e paternidade para muitas pessoas é considerada uma representação social e fase do ciclo vital, carregando em sua essência o instinto de perpetuação da espécie.
Desejar conceber e ter um filho é poder ver partes de si em um outro ser, e perceber também traços do amado.
Quando o casal decide que chegou o momento de ter um filho e se depara com o diagnóstico de infertilidade é esperado um misto de manifestações psíquicas, seja para o casal, o indivíduo e/ou para as famílias envolvidas (RIBEIRO, 2004; LOPES, 2017).

O desejo de ter um filho é cercado por diversos fatores, como o sociobiológico, econômico, psicológico e social, que pode ocasionar uma amplitude intensa dos sentimentos e afetos em torno desse desejo.
Assim, alguns desequilíbrios emocionais podem ser desencadeados, sobretudo quando há o diagnóstico de infertilidade e posteriormente a necessidade de gametas doados.
De acordo com Leite e Frota (2014 p. 158), “a incapacidade de gerar um filho naturalmente é sentida como uma experiência dilaceradora para essas mulheres”. O sentimento de incapacidade e inutilidade prevalece por falharem em uma função característica do feminino.
O tratamento da infertilidade implica em amplos exames diagnósticos e tratamentos médicos de longa duração que podem gerar um misto de sentimentos e emoções.
Com maior frequência apresentam frustrações, insatisfação, impotência, injustiça, incerteza, culpa, irritabilidade, incompreensão, baixa autoestima, inadequação social, comprometimento da sexualidade, ansiedade pela natureza estressante dos resultados, com elevada expectativa e depressão quando não são alcançados (MOREIRA; AZEVEDO, 2010).

O acompanhamento psicológico possibilita um espaço de escuta neutra e qualificada onde possam falar de suas emoções, reconhecendo suas dúvidas, inquietudes e temores.
Possibilita a elaboração de suas angústias e favorece recursos afins de que o sujeito possa refletir sobre as questões que permeiam esse universo e tomar decisões conscientes e coerentes com seus desejos, resultando em segurança para o tratamento e todos os possíveis resultados.
Pesquisas mostram que uma série de fatores pode levar os casais a não persistirem nas tentativas de reprodução assistida, alguns por terem engravidado e outros podem ter desistido do tratamento.
Os dados indicaram que 56% dos sujeitos afirmavam que repetiriam o protocolo, caso não conseguissem engravidar. No entanto, no final do ciclo, apenas 37% tinham intenção de repeti-lo. Isso reflete o desgaste emocional, financeiro e interrupções das atividades diárias experienciadas pelos participantes (MAHLSTEDT; MACDUFF; BERSNTEIN, 1987 apud JACOB, 2000).

Jacob (2000) infere que a alta prevalência de sintomas depressivos entre as mulheres que não conceberam durante a fertilização in vitro (FIV), pode ter um impacto adverso no sucesso de ciclos futuros. A mesma autora destaca que a perda de objeto, seja uma pessoa amada ou de uma condição desejada que produziria prazer ao sujeito, é um dos fatores centrais nas explicações sobre a depressão.
Homens e mulheres no tratamento de reprodução assistida reportaram níveis similares de estresse e ansiedade. A diferença está apenas no fato de que os homens não expressam seus sentimentos tão abertamente quanto as mulheres, pois se colocam na posição de prover ajuda financeira e emocional. 

REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS

MOREIRA, S.N.T.; AZEVEDO, G.D. Estresse e função reprodutiva feminina. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Polêmica Revista Eletrônica, v. 9, n. 4, p. 58-63, 2010.
JACOB, L.S. Stress e ansiedade em casais submetidos à reprodução assistida. Tese de doutorado. Instituto de psicologia da Universidade de São Paulo, 2000.
LEITE, R.R.Q.; FROTA, A.M.M.C. O desejo de ser mãe e a barreira da infertilidade: uma compreensão fenomenológica. Rev. Abordagem Gestalt., Goiânia, v. 20, n. 2, p, 151-160, 2014.
LOPES, H.P. Parentalidades em construção na reprodução assistida: uma proposta de acompanhamento sistêmico-relacional. Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, 2017. Disponível em: <https://psicologia.sbrh.org.br/wp-content/uploads/2017/02/parentalidades.pdf>. Acesso em 10/07/2020.  RIBEIRO, M.F. DA ROSA. Infertilidade e reprodução assistida: desejando filhos na família contemporânea. São Paulo; Casa do Psicólogo, 2004.

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