setembro 22, 2021

Lílian Lima Queiroz CRP 11/10405

A maternidade é vivenciada de uma maneira singular para cada mulher. Inclusive, os caminhos que as levam a se tornarem mães também é bastante diverso: algumas sonham desde a infância com esse papel, outras nunca pensaram no assunto e há ainda as que não queriam, mas, por acaso, ironia ou pressão externa, engravidaram.

Ultimamente, vemos crescer uma discussão calorosa que associa o sentimento de arrependimento com a experiência materna. Por um lado, há uma “norma” social que rejeita completamente essa associação. Essa rejeição culpabiliza e silencia as mulheres que ousam fazer qualquer referência ao seu arrependimento. São julgadas de monstros, de alguém de alta periculosidade e as mais diversas pragas lhes são rogadas.

A internet, com toda a sua democratização de opiniões, oportunizou o encontro, a identificação e a expressão das dificuldades do ser mãe, da maternidade real e do arrependimento materno. Cada vez mais mulheres se permitem gritar a máxima: “amo meu filho, mas odeio ser mãe!”.

Orna Donath (2017, p. 69) define arrependimento como “uma postura emocional que pode ser acompanhada de uma confusão e de um sofrimento enormes”. De maneira geral, os arrependimentos não são tão bem aceitos em nossa sociedade. A concepção de tempo predominante é de um tempo linear. Se não é possível voltar ao passado, não adianta “chorar pelo leite derramado”. Mesmo assim, não deixamos de nos arrepender, de nos ressentir por eventos que gostaríamos de não ter experimentado.

A nossa vivência do tempo não segue o cronômetro do relógio. Nas palavras de Donath (2017, p. 72), “vivemos em uma sociedade que tende a desvalorizar qualquer tipo de preocupação com o que se considera passado, a não ser nas duas situações seguintes: um olhar nostálgico que se deleita com o que um dia foi; e uma recordação pragmática com o objetivo de melhorar o futuro”. Tudo aquilo que não entra em uma dessas duas possibilidades é silenciado.

Quando o arrependimento acontece no âmbito da maternidade, a situação se agrava um pouco mais, pois existem regras sociais que determinam como uma boa mãe deve se sentir: feliz, realizada, preenchida, etc. Perceber-se sentindo qualquer outra sensação para, além disso, é um fardo e se o sentimento for a genuína vontade de não estar nesse papel é ainda mais difícil. Nesses casos, em que o arrependimento não é permitido socialmente, um duplo sofrimento se estabelece: o do arrependimento em si e da culpa por senti-lo.

Em seu livro “Mães Arrependidas”, Orna Donath (2017) analisa a experiência de arrependimento de 23 israelenses e faz questão de ressaltar que a arrependimento e ambivalência materna são fenômenos distintos, ressaltando a existência daquelas que, apesar de amarem os filhos e não os fazerem mal, preferiam não ser a mãe deles.

Mesmo seu campo sendo em outro país, muitas de suas análises podem ser observadas na vivência de mães brasileiras. Posto que se existisse uma receita para uma mãe arrependida, a maternidade compulsória, sem dúvidas, seria seu primeiro ingrediente. Em nosso país, também existe uma alta valorização social da maternidade e uma mitificação do papel materno. Ainda hoje, as que escolhem pela não maternidade são objetos de estudo, sendo convocadas a explicações, “o que as leva a quebrar o ciclo natural da vida?”, muitos ao seu redor exigem uma resposta. E, mesmo quando as escutam, replicam com um fatídico “você vai se arrepender mais na frente”.

Além disso, para que as mulheres efetivamente possam escolher, informações e métodos contraceptivos precisariam de um amplo acesso, o que não é condiz com a realidade. Educação sexual e planejamento familiar são pautas imprescindíveis das práticas em saúde.

Precisamos cada vez mais levantar discussões como essas e atentar que o arrependimento materno está para além de uma experiência individual. Ele se constitui a partir de uma estrutura social que ainda impõe a maternidade para as mulheres, ao mesmo tempo que não lhes dá condições, nem quaisquer suporte para o exercício do papel materno, condenando-as à solidão. Afinal, “quem pariu Matheus que o embale” é uma ideia predominante.  



Referência bibliográfica

DONATH, O. Mães arrependidas: uma outra visão da maternidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. 252 p.

Outra indicação de leitura

BADINTER, E. O conflito: a mãe e a mulher. Rio de Janeiro: Record, 2011. 196 p.

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