maio 24, 2021

Texto: Bruna Letícia Dias Gazzeta Souza – CRP 06/164278

A experiência da infertilidade pode ser muito dolorosa as mulheres que desejam gerar filhos. O luto vivenciado pode ser muito intenso, pois para muitos casais a chegada de um filho é carregada de muita expectativa e idealização, portanto, diante da impossibilidade da gestação muitos sentimentos podem vir à tona, como a frustração, o pesar, a dor e o medo. 

Descobrindo a infertilidade: 

Segundo Borba (2015), diante da notícia da infertilidade, o casal pode vivenciar a dor da perda, processo que acarreta muito sofrimento e luto. Quando a mulher se depara com essa descoberta, a autoestima pode ser abalada e sentimentos de vergonha, desvalia, medo, frustração e ansiedade podem surgir, o que pode ocasionar prejuízos no âmbito individual, conjugal, além de propiciar prejuízos em sua qualidade de vida. 

Para muitas mulheres, o poder engravidar faz parte de um projeto a ser alcançado e fundamental para a constituição da identidade feminina, portanto, a não concretização do “poder ser mãe” pode ser muito doloroso e acarretar uma intensa crise emocional. A incapacidade de gerar um filho pode abalar a representação de sua imagem corporal adulta e de sua sexualidade (BORBA, 2015). 

Entre 10% a 15% dos casais no mundo são considerados inférteis, as causas são inúmeras, sendo necessária uma profunda investigação para tentar identificar a etiologia. Uma vez definida a etiologia da infertilidade, procura-se tratar a causa, porém, há casos onde não são identificadas, deste modo, inicia-se a jornada da reprodução assistida, jornada esta carregada de intenso desgaste físico, financeiro e emocional (CASELLATO, 2020). 

Reprodução assistida: uma jornada possível?

As autoras Souza e Alves (2016) apontam que as principais técnicas de reprodução assistidas são: Inseminação intrauterina (IUI); Fertilização in vitro (FIV); Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoides (ICSI); Transferência de embrião congelado (TEC).  

De acordo com Casellato (2020), quanto mais brevemente à gestação for alcançada através das técnicas de reprodução assistida, menores são as chances de consequências emocionais, pois a vida como era antes é retomada e outras necessidades passam a serem satisfeitas. No entanto, quanto mais longo e frustrante for o processo, maiores são as chances de intensas cicatrizes marcarem a vida do casal. O tratamento pode ser uma experiência muito sofrida e afastar o casal dos amigos e familiares, afetar a vida profissional e financeira, adiar planos ou projetos, o próprio relacionamento a dois tende a sofrer impacto, além disso, a autoestima fica muito abalada, principalmente daquele que foi diagnosticado com a infertilidade. 

Segundo Marques e Morais (2018) as inúmeras tentativas para a concretização do sonho de ter um filho biológico pode provocar intenso sofrimento aos casais. Entretanto, a maior parte desse sofrimento poderia ser evitada se houvesse maior investimento para o acompanhamento contínuo dos casais durante os tratamentos, enfocando principalmente as limitações das técnicas de reprodução assistida, além da possiblidade de outras formas de vivenciar a maternidade/paternidade. 

E quando o tratamento não apresenta sucesso?

A autora Casellato (2020) afirma que em alguns casos as próprias limitações financeiras ou de saúde podem definir o fim do tratamento e quando não há limites bem definidos, a tomada de decisão é baseada em critérios subjetivos. A escolha pelo fim do tratamento costuma passar por inúmeras transformações, mas é certo que em algum momento  uma decisão definitiva é tomada e assim o casal precisa lidar com a concretização da impossibilidade de gestar um filho.  A partir disso, três caminhos se abrem: viver sem filhos, adotar ou optar pela doação de gametas/embriões. Tais decisões perpassam pelo foro íntimo, exigindo informação adequada e reflexão por parte do casal. 

Diante de todas as certezas do fim do processo e da impossibilidade de gestar, agora o casal é convidado a repensar as suas expectativas e sonhos. Infelizmente esse momento pode se tornar ainda mais difícil, pois a dor da perda e do luto frente à infertilidade aparece como invisíveis à sociedade. O luto diante da infertilidade não é reconhecido socialmente diante da falta de clareza sobre o que for perdido. Isso acontece porque a perda não é reconhecida quando não ocorre à existência física da criança, e a mulher que tanto sonhou com o momento de ter um bebê em seus braços, que já o amava mesmo antes de se descobrir infértil, é negado o seu direito de enlutar-se (CASELLATO, 2020). 

A dor do luto precisa ser reconhecida e vivenciada:

Segundo Casellato (2020), o luto é um processo normal e esperado e muito necessário para darmos sentido à perda e para a própria elaboração e restauração que viabiliza a continuidade. Diante disso, é muito importante que quem esteja passando por esse processo se reconheça vivendo o luto e ciente de todos os sentimentos e reações que esse fenômeno pode acarretar. 

De acordo com Soares (2013), as reações mais comuns frente do luto são: reações físicas (respiração curta e falta de ar, dor física, boca seca, mudança de apetite, alteração do sono, etc.), reações emocionais (choque, negação, desespero, tristeza, culpa, raiva, ressentimento, etc.), reações comportamentais (busca constante pela pessoa morta, falta de concentração, preocupação, busca de solidão, agitação, choro, etc.), reações sociais (isolamento social, dificuldade de interagir com os outros, perda de interesse pelo mundo externo, etc.) e reações espirituais (perda da fé ou, ao contrário, aproximação de Deus).

Tanto a maternidade, quanto a paternidade são repletas de expectativas e significados, a privação desse lugar simbólico e o rompimento com os planos e sonhos que haviam sido construídos  pode ser muito doloroso (CASELLATO, 2020). Diante disso, é preciso possibilitar abertura de validação dessa dor, em um espaço onde os sentimentos sejam reconhecidos como significativos. É muito importante que o enlutado possa organizar as novas informações,  efetivar a sua perda (perda da possiblidade de gestar), vivenciar os seus sentimentos, encontrar um lugar onde possa lidar melhor com a nova realidade, além de encontrar um novo sentido diante da infertilidade. 

A autora Casellato (2020) afirma que o não reconhecimento do luto diante da infertilidade por parte da sociedade não anula o luto ou a necessidade de um ritual que dê sentido à dor. Cada pessoa que esteja passando por esse processo deve sim procurar criar rituais de despedidas para lidarem com a dor da perda. As formas  de ritualizar são diversas e subjetivas, mas o importante é cada um compreender que está passando por um processo de luto, que  precisa ser vivenciado e não adiado ou evitado, no qual exige tempo e adaptação para sua elaboração. A autora afirma que reconhecer e nomear a dor é permitir senti-la, sendo o primeiro passo em direção ao futuro diferente daquele imaginado anteriormente, mas que também inclui outras possibilidades e momentos de muitas alegrias. 

Ademais, a perda do filho desejado pode culminar no luto que requer um trabalho intenso de elaboração, porém deve ser considerado que cada casal viverá a infertilidade e o luto de uma forma muito singular. Portanto, considerar as particularidades de cada caso é de extrema importância, pois não existem lutos iguais, não existem dores maiores ou menores, não existe um único meio de vivenciar a dor, cada pessoa viverá a sua perda e o processo do luto de maneira única e subjetiva. 

Referências:

BORBA, Mariane Candida Lira. Os Bastidores da Adoção: O Luto do “Esperado” Filho Biológico. 2015. (Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica)- Universidade Católica de Pernambuco,  UNICAP-Recife, 2015. Disponível em: < http://tede2.unicap.br:8080/handle/tede/231>. Acesso em: 19 de abr. de 2021. 

CASELLATO, Gabriela. Luto por perdas não legitimadas na atualidade. São Paulo: Summus, 2020. 

MARQUES, Patrícia Pinheiro; MORAIS, Normanda Araujo de.  A vivência de casais inférteis diante de tentativas inexitosas de reprodução assistida. Avances en Psicologia Latinoamericana, Ceará, v. 36, n. 2, p. 299-314, 2018. Disponível em: <http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1794-47242018000200299&lng=en&nrm=iso&tlng=pt >. Acesso em: 07 de abr.  de 2021.

SOARES, E. G. B. Conversando sobre o luto. São Paulo: Ágora, 2013. 

SOUZA, Karla Keila Pereira Caetano; ALVES, Oslania de Fátima. As principais técnicas de reprodução humana assistida. Saúde & Ciência Em Ação, v. 2, n. 1, p. 26-37, 2016. Disponível em: < http://www.revistas.unifan.edu.br/index.php/RevistaICS/article/view/182>. Acesso em: 16 de abr. de 2021. 

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