abril 18, 2022

Por Bárbara Góes CRP03/15900

Esse é um questionamento que muitas pessoas ainda se fazem: “Parceiro(a) é rede de apoio?”.

A participação ativa dos parceiros(as) ainda é vista como um acontecimento raro em alguns contextos familiares. Muitas pessoas vangloriam aqueles parceiros(as) que atuam ativamente, exercendo a parentalidade da forma corretamente compartilhada.

Por conta desse contexto, algumas pessoas percebem essa atuação como uma ajuda e não responsabilidade. Para entender melhor essa situação, é importante voltar o olhar para a história da família e o conceito de parentalidade.

A parentalidade engloba a função materna e a paterna, independente dos gêneros.

O conceito de paternidade tem experimentado drásticas mudanças decorrentes das modificações econômicas, sociais e culturais que a família vem sofrendo ao longo do tempo. Tecendo um breve panorama, nos séculos XVII e XVIII os pais tinham o papel de provedor financeiro e o de promover o desenvolvimento moral e a educação religiosa de seus filhos. Com a industrialização e a urbanização, a partir do século XIX, os pais que geralmente mantinham contato frequente com sua família porque trabalhavam em fazendas perto da residência, passaram a ter que trabalhar em indústrias com excessiva carga horária de trabalho, havendo redução no seu convívio familiar e, consequentemente maior responsabilidade das mães pelos cuidados do filho (Coley, 2001).

A partir de 1970, com a revolução feminista, a porcentagem de mulheres que exercem atividades remuneradas vem progressivamente aumentando. Apesar desse aumento crescente da mulher no mercado de trabalho ter favorecido economicamente à família, essa equidade econômica está gerando transformações nos papéis atribuídos ao gênero, tanto no ambiente profissional quanto no ambiente familiar (CIA; WILLIAMS; AIELO, 2005).

Segundo Falceto (2002), a participação e o envolvimento paterno dependem, ainda, da crença do pai na sua importância para o bebê desde o início, que está relacionada à sua própria experiência como filho de seu pai. Desta forma, pais que tiveram experiências satisfatórias com seus próprios pais tendem a reconhecer a sua importância para com seu filho. Enquanto a participação da mãe nos cuidados da criança é geralmente obrigatória, a do pai é mais uma questão de escolha e depende das definições culturais dos papéis dos homens e das mulheres. O homem trabalha fora, tendendo a se envolver menos que a mulher nos cuidados diários da criança e a ser influenciado por suas ideias em relação à criação dos filhos, envolvendo-se, geralmente, no reforço da disciplina e no brincar com a criança. Por outro lado, um marido que dá apoio vai ser sensível ao estado emocional da esposa, aumentando a sua participação nos cuidados da criança durante situações de estresse.

É visível que ao longo do tempo o papel do parceiro tem se transformado muito, e não cabe mais na realidade social atual enxergá-lo apenas como um provedor e sobrecarregar a mãe na função dos cuidados parentais. Certo que essa visão difere em cada contexto familiar, que funciona de forma particular e não cabe comparação. Há famílias em que o pai acaba estando mais presente em casa do que a mãe, e vice versa. Mas quando se fala em responsabilidade parental, deve-se entender que essa função cabe a ambos os pais. Dessa forma, o parceiro não deve ser entendido como pertencente à rede de apoio, mas sim à rede primária de cuidados e responsabilidade com o bebê.

De acordo com Falceto (2002), a rede de apoio social se refere à disponibilidade de sistemas e de pessoas significativas que proporcionam apoio e reforço às estratégias de enfrentamento do indivíduo diante das situações de vida. A rede de apoio social pode incluir a família extensa, os amigos, colegas de trabalho, relações comunitárias e serviços de saúde, de credo religioso ou político, incluindo tanto as relações íntimas como aquelas ocasionais.

Ainda que esteja claro a exclusão do parceiro(a) no rol das pessoas que podem fazer parte da rede de apoio, encontramos em algumas pesquisas que, entre os participantes da rede social de apoio da mãe durante as transições decorrentes do nascimento de filhos, seus companheiros e os próprios pais ou sogros são citados como os principais colaboradores, pois oferecem a ela o suporte na realização das tarefas domésticas e nos cuidados dispensados ao bebê (BURCHINAL; FOLLMER; BRYANT, 1996). Isso demonstra que ainda existe uma confusão desses papéis.

Além disso, os dados de um estudo realizado por Oliveira e Dessen (2012) indicam que o papel do pai brasileiro continua sendo o de provedor.

Portanto, o que a maior parte dos estudos mostram é que a díade mãe-bebê ainda prevalece e que a adequação do papel ativo e responsivo do parceiro(a) no exercício da parentalidade está caminhando em passos curtos e confusos no contexto sócio, histórico e cultural. É necessário que a sociedade dê espaço para que o parceiro(a) possa exercer seu verdadeiro papel, que não é de rede de apoio.

Referências bibliográficas:

BARNETT, R. C., HYDE, J. S. Women, men, work, and family: an expansionist theory. American Psychologist, v.56, n.10, p. 781-796, 2001.

BURCHINAL, M. R., FOLLMER, A., BRYANT, D. M. The relations of maternal social support and family structure with maternal responsiveness and child outcomes among African American families. Developmental Psychology, v.32, n.6, p.1073-1083, 1996.

CIA F., WILLIAMS L.C.A., AIELLO A.L.R. Influências paternas no desenvolvimento infantil: revisão da literatura. Artigos. Psicol. Esc. Educ. v.9, n.2, 2005. <https://doi.org/10.1590/S1413-85572005000200005>

COLEY, R.L. (In) visible men – emerging research on low-income, unmarried, and minority fathers. American Psychologist, v.56, p.743-753, 2001.

FALCETO O.G. A influência de fatores psicossociais na interrupção precoce do aleitamento materno [tese]. Porto Alegre (RS): Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2002. 

OLIVEIRA MR, DESSEN MA. Alterações na rede social de apoio durante a gestação e o nascimento de filhos (2012). Artigo elaborado a partir da dissertação de M.R. OLIVEIRA, intitulada “Nascimento de filhos: rede social de apoio e envolvimento de pais e avós”. Universidade de Brasília, 2007. Apoio: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Disponível em <https://www.scielo.br/j/estpsi/a/Mc8jHRgNP8x9y5Zq7jq7hHb/?format=pdf&lang=pt>. Acesso em 18 janeiro de 2022.

RAPOPORT, A.; PICCININI, C. A. Apoio social e experiência da maternidade. Rev. Bras. Crescimento Desenvolv. Hum.,  São Paulo ,  v. 16, n. 1, p. 85-96, abr.  2006. <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12822006000100009&lng=pt&nrm=iso

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