maio 10, 2021

Texto: Lúmia Pedrosa Pereira – CRP 01/22740

Este é um assunto de repercussão social, com uma elaboração histórica e moral definidora de alguns conceitos e interpretações. Uma interpretação bastante comum consiste em atribuir o abandono a motivos morais e econômicos.

Segundo Mariano e Rossetti-Ferreira (2008) são mães advindas de classes populares, e o motivo mais frequente para a entrega do filho é a falta de condições socioeconômicas, podendo resultar também da falta de apoio familiar, gravidez fruto de um abuso sexual, gravidez decorrente de relação extra conjugal e de uma relação eventual.

Falta um olhar psicossocial e econômico que compreenda no seu todo mãe e filho na questão da entrega, pois, essas mulheres são renegadas de benefícios técnicos-administrativos como apoios previdenciários, ajudas de custo, orientação e apoio médico e emocional. 

Para Motta (2001), há necessidade de visualização da mãe biológica no processo da adoção e resguarda que se não zelarmos das mães, não cuidaremos das crianças e ainda que “… tanto as violências sociais como as psicológicas estão de fato presentes na entrega, mas ampliando a compreensão… a desistência da entrega de um filho em adoção também pode ser incluída entre as violências sociais.” 

Giberti, Gore e Taborda (1997) apud Freire (2001), argumentam o porquê da exclusão dessas mães, seria a falta de instituições para protegê-las, ou a hipótese de que elas não necessitam de acompanhamento jurídico ou clínico, ou se é preciso que elas desapareçam e sejam impedidas de constituir algum vínculo com a criança que geraram? E por vez asseguram que o destino dessas mães é desaparecer da vida e da história de seus filhos. De acordo com Motta (2001), essas mães são esquecidas, assim que, entregam seus filhos em adoção. O estado as abandonam, e elas lidam com o luto, a vergonha, e o arrependimento muitas vezes de maneira solitária e oculta, e ainda internalizam valores sociais e morais que as culpabilizam e talvez por essa razão não sintam o direito de esperar ou exigir coisa alguma.

Relato de uma mãe que entregou seu filho para adoção: “Foi a pior sensação que uma mãe pode ter, é como ali você perdesse um pouco da sua integridade física e mental o seu psicológico te questiona o tempo todo se você é gente ou bicho? Me questiono se tomei a decisão certa, as vezes dá vontade de voltar atrás e desfazer tudo!”

Referências:

FREIRE, Fernando (org.). Abandono e Adoção. Curitiba: Terra dos Homens: Vicentina, 2001.

MARIANO, F. N.; ROSSETTI-FERREIRA, M. C. Que perfil da família biológica e adotante, e da criança adotada revelam os processos judiciais? Psicologia: reflexão e crítica, Porto Alegre, v. 21, n. 1, p. 11-19, 2008.

MOTTA, Maria Antonieta Pisano. Mães Abandonadas: a entrega de um filho em adoção. São Paulo: Editora Cortez, 2001.

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